sexta-feira, 10 de junho de 2011

Estrela Alva




Eis que no rompante ele surge
e leva minh´alma à loucuras
eu me deixo cair, possuída
eu me deixo possuir, caída


Amado de Sínquises profanas
Eleito de dálias enegrecidas
Maldito de bênçãos levianas
Bendito de luzes enfraquecidas


Tu, rei, noivo, esposo, Deus
Eu, saliva, ruína, pó, desconstrução
Transporte-me para os aposentos teus
Transporte-me para a alva escuridão


A ti darei minha breve eternidade
Amo-te, farei o que lhe é mister
A ti darei o Parnaso, a deidade
Amo-te, príncipe, redentor, Lúcifer





soares




quarta-feira, 8 de junho de 2011

paixão de Cristo








pode haver algo mais herege que o amor?


torpor de dores, intervenção de cores,


pode haver algo mais herege que o amor?








a pedra do sepulcro removida


a mulher estatelada


a nas mãos não pedra mais erguida


a mulher estatelada








pode haver algo mais herege que o amor?


odor de prantos, risos e encantos,


pode haver algo mais herege que o amor?








o cântaro ao poço frente, vazio


a mulher enebriada


o que já não tinha odre vinho


a mulher enebriada


unguento o derramado ungindo


a mulher enebriada








pode haver algo mais herege que o amor?


como vos amou, tudo em si deixou,


pode haver algo mais herege que o amor?








o de sangue fluxo o e toque


a mulher saciada


o irmão ressurreto, morto ao evoque


a mulher saciada


corpo jovem, esquife no encoste


a mulher saciada








pode haver algo mais herege que o amor?


lânguido, cândido, fel, lúbrico, pudico, cruel


pode haver algo mais herege que o amor?







soares





terça-feira, 7 de junho de 2011

Blasé








Da minha musa não quero saciar-me




encosto-me ao som da imagem




um fulgor que me encanta a miragem




vem de noite arrebentar-me, banhar-me








De Helena só quero a lembrança



o espectro, o fantasma, a figura



De Salomé enebria-me a dança



a nevrose, o cálido, o tenro, a amargura









De vós só me resta o eu



ambos juntos, acoplados, adejados



Seja tu o que em mim é meu



nós atados, nós amantes, nós culpados






(...)




soares

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Marília de Drácula



Eu, Marília, não sou algum santo,
que viva a rezar em genuflexório;
De rezas rasas, d'amla e recanto,
dos coros sacros, de terço notório.
Tenho tez sepulcral, e nela me louvo
Dá-me tu, tu'alma, pavor, finitude
Das brancas pias tiro o vigor, a virtude
E mais as boninas maldosas, que sorvo.
Graças, Marília parva,
Graças à minha Escrava!



Marília, meus dentes
São réus e culpados,
Que sofra, e que beije
Os lábios arcados
Que a Ti atiro
Marília, escuta
seu amo, Vampiro.



Minha bela Marília, sou eterno;
Tua sorte é fútil, ignóbil e pecita;
Se a ventura aos males excita,
É ela beata de tolos, gélido inferno.
Estão os mesmos Deuses
seduzidos ao poder do imanente
Zeus, que se encatava com as mortais
Nunca quis ser permanete

A devorante mão negra da Morte
acaba de roubar-me de Ti;
Até na triste sepultura hei de rir
Zombar da tua inconstante sorte.




soares


*Este poema foi estruturado a partir dos versos do poema Marília de Dirceu de Thomás Antônio Gonzaga, um dos poetas do Arcadismo.

*foto, filme Drácula (1931)



terça-feira, 26 de abril de 2011

InConstanza




Do que quero
nada espero
refestelo
com esmero
tudo é vago, tudo é vero
tudo é nada
Do que quero
nada espero
vago é tudo, vago é vero
se me vejo, me espero
tudo é névoa
Do que quero
nada quero
se me névoa, não me vero
vejo vago, refestelo
tudo todo
tudo espero
Do que tudo
nada vago
vejo quero
refestelo
nada tudo
névoa mudo
vejo vero
vago espero
tudo nada
refestelo
quero nada
todo esmero
tudo vejo
tudo vero
vejo névoa
vivo vago
do que tudo
Do que quero


soares

*tela: Erika Baptista, 2010

quinta-feira, 14 de abril de 2011

désir...





Venha amado, submergir em nossas covas
Seu rosto em plinto me desperta as alcovas
Um fustão rubro que amanhece ideias novas
Salamandras horríficas, zebus, chidovas...

Bel prazer
Vil romper
São arder
Mui ranger
Hei sorver

Venha amado, jazer em alteridades ascidiosas
alegorias vampirescas, Íncubus, mortes dolorosas
melancolias perversas, Súcubus, hostes pavorosas
Venha amado, refestelar-se em Flores dispendiosas

Bel romper
Vil sorver
São ranger
Mui prazer
Hei arder

Eis-me, amado, preso às vinhetas dos hostis encantos
Sou teu, simulacro. Sou teu, nos portentos sacrossantos
Eis-me, amado, preso em furnas póstumas, aos prantos
Sou teu, cadáver. Sou teu, em ruínas sádicas, vis antros


soares
*foto: Katarzyna Koniekzca

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Velida



amores ey

em cada esquina de Vigo, gania, ululava
berros, espelhos, cátedras, eunucos, penetrava
falos, medos, jóias, ardores, gozos, drapejava

amores ey

Saciar-se-ia com outra amada os ares?
Transgrediria pia ante o dogma fugaz?
Sagrada louçana és ante ideais tenazes...
Sagrada louçana és ante meus ideais...

amores ey


Soares


*foto: Katarzyna Koniekzca